|

(clique na imagem para aumentar)
Em Belas, a pré-história
Tudo começou nos alvores tão românticos como
turbulentos do século XX, em 1902,
quando um
grupo de
jovens
veraneantes
em
Belas, então um
bucólico e ainda distante subúrbio de Lisboa,
decidiram fundar um club e disputar um jogo de
foot-ball (assim se designava a modalidade) em
Seteais integrado nas festas populares de
Sintra. Foi um jogo muito animado e com
frequência considerada distinta – figuras da
família real estiveram presentes – disputado
entre o
Sport Club de Belas, a designação que os
desportistas em férias tinham dado à sua
colectividade, e um grupo de Sintra. Vitória por
3-0 do Belas, no qual se destacavam os irmãos Gavazzo, Francisco e José Maria, entre outros
desportistas de então, todos eles qualificados
pela imprensa como “elementos de boas famílias”,
como então se dizia. O Diário de Notícias
informou sobre o acontecimento relatando que
«num círculo compacto assistiam mais de quatro
mil pessoas, cheias de animação e de interesse».
O
Sport Club de Belas foi um sonho de Verão que se
esfumou terminadas as férias, mas não morreu. O
jogo em Sintra, realizado em 26 de Agosto de
1902, foi marco único; porém, os ideais que
motivaram os intervenientes continuaram bem
vivos. Os jovens veraneantes, pouco mais do que
adolescentes, regressaram ao quotidiano lisboeta
sonhando com os ecos dos sports no estrangeiro,
principalmente França e Inglaterra, mantendo-se
em contacto pois muitos deles partilhavam a área
residencial do Campo Grande e frequentavam
tertúlia na Pastelaria Bijou, que ainda hoje
existe na Avenida da Liberdade. Foi aí que,
quase dois anos depois da experiência de Belas,
em 1904, os jovens amantes do desporto e do
convívio ao ar livre decidiram voltar ao terreno
e fundar o Campo Grande Football Club. Outros
dos convivas daquele Verão de 1902 nos subúrbios
tinham anteriormente metido mãos à obra e
fundado o Clube Internacional de Futebol, o
histórico CIF agora com as suas instalações em
Monsanto.
A sede do Campo Grande Football Club ficou
instalada num quarto do segundo andar do Solar
dos Pinto da Cunha, edifício que continua a
definir a esquina entre a Alameda
das Linhas de
Torres e o Campo Grande. Além dos irmãos Gavazzo, participaram na reunião fundadora o
jovem José Holtreman Roquette (José Alvalade),
José Stromp e outros entusiastas da prática
desportiva. O Visconde de Alvalade, José Alfredo
Holtreman, avô de José Alvalade, patriarca da
família então já a caminho dos 70 anos, foi
designado presidente, a título honorífico, pelo
seu apoio desinteressado e a sua capacidade
natural de entender e incentivar os anseios e
espírito de iniciativa do neto e respectivos
amigos.
Futebol, esgrima, ténis, corridas, saltos,
festas sociais e piqueniques foram as principais
actividades dinamizadas pelo novo clube durante
os primeiros dois anos de existência.
A fundação
Em 1906 os ambientes turvaram-se e gerou-se uma
divisão entre os membros que defendiam uma
colectividade vocacionada para
festas
e
actividades de convívio social e outros que
insistiam na dedicação à vertente desportiva.
Explica Júlio de Araújo, mais tarde
presidente
do Sporting, historiando o processo da fundação,
que «dia-a-dia se acentuavam duas tendências: a
dos rapazes de Lisboa, que desejavam a sede na
Baixa; outra, a dos do
Campo Grande, que a
pretendiam naquele local, como seria justo e
aconselhável». Além disso, de acordo ainda com a
narrativa de Júlio de Araújo, «o desentendimento
prevaleceu não somente quanto à sede, mas também
quanto à forma de ser do Clube, visto que os de
Lisboa, ao contrário dos do Campo Grande, mais
se interessavam pelas festas do que pelas
práticas desportivas».
Da turbulência nasceu uma cisão. José Gavazzo
demitiu-se, acompanhado por mais cerca de duas
dezenas de membros. Um deles foi José Alvalade
que, sem demora, anunciou: «Vou ter com o meu
avô e ele me dará dinheiro para fazer outro
Clube.»
Decisão
que foi recompensada. O Visconde de Alvalade
tutelou a criação do novo clube, depositou nas
mãos do neto uma importante quantia em dinheiro,
disponibilizou os terrenos para o campo de jogos
na sua própria quinta – o Sporting ainda hoje
continua a “morar” na mesma zona – e ficou como
presidente da Direcção e como “Sócio Protector”.
Foi então que o jovem José Alvalade, num rasgo
de entusiasmo aliado ao êxito das suas
iniciativas, mas que se revelou de grande visão
histórica, proferiu o célebre voto: «Queremos
que este Clube seja um grande clube, tão grande
como os maiores da Europa.»
Em 14 de Abril de 1906 a recém-criada
colectividade adoptou a designação provisória de
Campo Grande Sporting Club. A 1 de Julho do
mesmo ano, por sugestão de António Félix da
Costa Júnior, passou a chamar-se Sporting Clube
de Portugal. Em Julho de 1920, por proposta de
Nuno Soares Júnior, a Assembleia Geral adoptou a
data de 1 de Julho de 1906 como a da fundação
oficial do Sporting. Foram 18 os fundadores a
quem se deve essa enorme gesta que agora celebra
um século.
Ambição e dinâmica de vitória
O Sporting Clube de Portugal comemorou,
portanto, cem anos bem contados, com respeito
pelo rigor histórico. Outros somam anos a partir
da fundação de entidades que lhes deram origem
ou ignoram longos períodos de inactividade que
se seguiram a uma efémera existência. São
critérios. Para ser mais “idoso”, como outros se
dizem, o Sporting poderia ter fixado como data
da sua fundação a do Sport Club de Belas (1902)
ou mesmo a do Campo Grande Sporting Club (1904),
mas não o fez.
Nesses dias de 1906 ficou traçado o caminho:
futebol sim, mas eclectismo também,
correspondendo à vocação atlética
multidisciplinar de alguns dos seus fundadores.
Eles eram ao mesmo tempo dirigentes e atletas,
jogavam futebol, faziam atletismo, praticavam
ténis, tracção à corda, esgrima, críquete,
ginástica, hóquei em campo...
Em 1907, D. Fernando de Castelo Branco
(Pombeiro) autorizou que o leão rampante do seu
brasão fosse utilizado como símbolo do Sporting,
desde que não sobre fundo azul. «... Não de oiro
armado de vermelho em campo azul, como nos
Pombeiros, mas de prata armado em preto, em
campo verde, como correspondia às límpidas,
firmes e esperançadas intenções dos seus
fundadores», recorda Júlio de Araújo. O verde
fora, de facto, sugerido pelo Visconde de
Alvalade, simbolizando a sua esperança no novo
clube.
A 3 de Fevereiro de 1907 realizou-se o primeiro
jogo de futebol do Sporting. Não se pode dizer
que tenha estado à altura dos êxitos vindouros:
derrota por 5-1, em segundas categorias, frente
ao Cruz Negra, em partida disputada em
Alcântara. Do lado dos vencedores jogaram alguns
desportistas que depois ingressaram no Sporting:
Alípio da Motta Veiga, Octávio Teixeira Bastos,
António das Neves Vital, entre outros. D. João
de Vila Franca marcou o golo de honra desse
jogo, que assim se tornou o primeiro da História
do Sporting.
Em
1 de Dezembro de 1907 nasceu uma longa e eterna
rivalidade. O Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa (que só viria a designar-se Benfica
no ano seguinte) disputaram o seu primeiro jogo
de futebol, no Campo da Quinta Nova, em Sete
Rios. O Sporting, que nos primeiros tempos
vestira de branco, estreou nesse encontro o seu
equipamento de camisola bipartida verticalmente
numa faixa verde e outra branca, com calções
brancos, agora adoptado como um dos modelos
solenes para as comemorações do Centenário.
Ficou conhecido como “equipamento Stromp”,
homenagem popular sportinguista a Francisco
Stromp, um grande futebolista e um dos mais
eclécticos desportistas portugueses de todos os
tempos. O Sporting venceu por 2-1 e Cândido Rosa
Rodrigues, um dos irmãos Catatau, antigo
praticante do Sport Lisboa, marcou pelos “leões”
o primeiro golo dos muitos jogos entre os dois
grandes rivais do desporto português. Em
1907-1908 o Sporting sagrou-se vice-campeão
regional.
O
clube já dispunha, nessa altura, daquele que era
considerado o melhor campo de Portugal, no Sítio
das Mouras. Localizava-se no nº 73 da então
Alameda do Lumiar, hoje Alameda das Linhas de
Torres, em terrenos disponibilizados pelo
Visconde de Alvalade na sua quinta. Começou a
funcionar ainda em Maio de 1906 e foi melhorado
logo em 1907. O complexo desportivo integrava
campo de futebol, pista de atletismo, dois
campos de ténis, pavilhão com chuveiros e banhos
de imersão e até uma cozinha. Um luxo para o
tempo.
Em 1910 o eclectismo estava enraizado. O
Sporting evidenciava-se em ténis por equipas e
ganhou os títulos do salto à vara, do lançamento
do peso e do salto em comprimento. Este foi o
ano em que José Alvalade assumiu a presidência,
que manteve até 1916.
Os triunfos iniciais
O rumo do clube estava traçado: o das vitórias.
O Sporting ganhou o seu primeiro Campeonato de
Lisboa de Futebol, ainda em quartas categorias,
no ano de 1912. O feito foi reeditado em 1915,
mas já na categoria de Honra, a que se juntou a
Taça de Honra, com vitória sobre o Benfica na
final (3-1). O Campeonato de Lisboa de 1915 foi
o primeiro de uma longa série de 19 (chegaram a
ser seis consecutivos) ganhos até 1947, quando a
competição foi extinta. Ainda em 1915, as
equipas do Sporting passaram a usar calções
pretos com a camisola “Stromp”.
Laranjeira Guerra venceu o Porto-Lisboa em
ciclismo no ano de 1912, competição que também
era uma epopeia com as estradas, os meios e os
equipamentos de então, tornando-se um precursor
de ciclistas brilhantes como Alfredo Trindade,
João Roque, Leonel Miranda, Marco Chagas e o
maior de todos, o saudoso Joaquim Agostinho.
Classificações brilhantes na Volta à França,
entre elas um terceiro lugar, e um segundo lugar
na Volta à Espanha – sem contar os grandes
triunfos em Portugal – transformaram Agostinho
numa das lendas e símbolos do Sporting.
Numa modalidade muito em voga à época, a luta de
tracção à corda, o Sporting revelou-se a grande
potência: nunca foi derrotado enquanto se
realizaram competições da especialidade.
Ainda no ano de 1912, o também polivalente
António Stromp brilhou nas provas de 100 (quarto
lugar na eliminatória) e 200 metros dos Jogos
Olímpicos de Estocolmo, que foram fatais para o
maratonista português Francisco Lázaro. António
Stromp foi pois o primeiro atleta olímpico
sportinguista, iniciando uma caminhada que
transformou o Clube na maior potência olímpica
do País, tanto em número de representantes como
de medalhas conquistadas. Também em 1912 o
Sporting venceu o primeiro da longa série de
Campeonatos Nacionais de Corta-Mato.
Em 1917 o Sporting mudou de instalações. José
Alvalade fizera construir o Stadium de Lisboa,
em 1914, mas divergências quanto à sua
utilização entre o fundador e a Direcção eleita
em 1916 levaram os responsáveis sportinguistas
em exercício a procurar outra solução.
Arrendaram um terreno nas vizinhanças, no Campo
Grande 412, e aí construíram um estádio sob
projecto do arquitecto António do Couto, que foi
a casa do Sporting durante 30 anos. A vida do
recinto, porém, prolongou-se por mais algumas
décadas pois foi utilizado pelo Benfica, com
solidariedade do Sporting, quando se mudou das
Amoreiras. Ficou popularmente conhecido pela
“estância de madeira”. Em parte do terreno onde
existiu assenta hoje a área sul do Estádio José
Alvalade.
O primeiro Campeonato, um novo
equipamento
Nos anos vinte aconteceu a primeira vitória do
Sporting no Campeonato de Portugal de futebol
(1922/23), a competição que atribuía o título
nacional, embora disputada em sistema de
eliminatórias. O jogo decisivo foi em Faro, em
24 de Junho de 1923, com uma vitória por 3-0
frente à Académica de Coimbra. Os
campeões: Torres Pereira, Jaime Gonçalves,
Francisco Stromp, João Francisco Maia, Carlos
Fernandes, José Leandro, Filipe dos Santos,
Joaquim Ferreira, Cipriano dos Santos, Jorge
Vieira e Henrique Portela. Joaquim Ferreira
marcou dois golos; Francisco Stromp, lenda do
Sporting e do desporto português, pioneiro dos
tempos da fundação, cavalheiro e atleta
sobredotado, marcou o outro e abandonaria o
futebol no ano seguinte, em 1924.
As secções de natação, pólo aquático e râguebi
iniciaram então a actividade. Foram o histórico
atleta e dirigente Salazar Carreira e o Sporting
que introduziram o râguebi em Portugal.
Em
1928 o Sporting estreou no futebol as suas
camisolas às riscas horizontais verdes e
brancas, uma mudança que, em boa parte, foi
proporcionada pelo râguebi. Aconteceu numa
histórica viagem ao Brasil, a primeira de um
clube português, e ficou a dever-se ao facto de
os equipamentos às listas usados pelo râguebi
serem mais frescos e estarem em melhor estado do
que os do futebol – camisola bipartida verde e
branca e calções pretos. Uma circunstância
fortuita, como tantas vezes acontece na
História, originou um modelo de equipamento que
se tornou profundamente apreciado em Portugal e
no estrangeiro, muito procurado pela sua
originalidade. A opção pelas listas horizontais
no râguebi fora sugerida pelo próprio Salazar
Carreira, inspirado no equipamento de um clube
francês da modalidade, o Racing de Paris, embora
este utilizasse o vermelho e branco. No regresso
do Brasil a equipa de futebol voltou ao
vestuário original mas em Outubro de 1928, num
jogo frente ao Benfica disputado sob temporal,
os jogadores mudaram de equipamento ao intervalo
e regressaram para a segunda parte com as
camisolas do râguebi. O Sporting ganhou o jogo
e... um novo equipamento.
A série de vitórias nos Campeonatos de Portugal
em futebol prosseguiu nos anos trinta: 1933/34,
1935-36 e 1937-38. Nesta década, o Clube somou
títulos em ténis, ciclismo, râguebi (ao nível
regional), tiro, hóquei em patins (vitória no
Campeonato Nacional em 1937-38, primeira edição
da prova), patinagem, ginástica e esgrima.
Alfredo Trindade, com numerosos títulos em
várias especialidades do ciclismo, venceu a
Volta a Portugal em 1933, a primeira vitória
individual e colectiva do Sporting na mais
importante prova velocipédica portuguesa.
Trindade ficou na história pelos seus feitos
individuais mas também pela intensa rivalidade,
temperada com respeito e grande amizade, com o
benfiquista José Maria Nicolau. Os seus duelos
empolgaram os portugueses de então, mesmo sem a
dinâmica mediática que hoje existe. José
Albuquerque, o “Faísca”, venceu a Volta a
Portugal de 1940.
O lendário avançado-centro Fernando Peyroteo,
que ingressara no Sporting em 1937, emergiu em
1938 como melhor marcador do Campeonato da I
Liga, com 34 golos. Ele viria a ser uma figura
central dos anos de ouro que se seguiram.
Anos
de ouro
Os anos de quarenta e cinquenta foram fabulosos
para o Sporting. Dez dos 18 títulos de Campeão
Nacional de Futebol conquistados pelo Sporting
até hoje aconteceram nesses 20 anos, aos quais
se juntaram quatro das 13 Taças de Portugal que
figuram no quadro de honra do Clube. De 1946-47
a 1953-54 o Sporting venceu sete dos oito
campeonatos em disputa, juntando um
tricampeonato e um tetracampeonato – ficando a
época de 1949-50 de permeio. Foram os anos dos
“Cinco Violinos”, de grandes e históricas
equipas que conquistaram enorme fama nacional e
internacional, de técnicos como José Szabo,
Kelly, Galloway, Cândido de Oliveira, Armando
Ferreira, Enrique Fernandez e outros. A
designação “Cinco Violinos” foi atribuída pelo
jornalista e treinador Tavares da Silva a uma
linha avançada formada por Jesus Correia,
Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Eles e os
seus companheiros formavam uma orquestra a
jogar, tal o espírito colectivo e a eficácia em
campo. Nesses anos o Sporting chegou aos 123
golos (quase cinco por jogo!) num campeonato que
tinha então 26 jornadas, menos oito que
actualmente. Um recorde que dificilmente será
batido.
Além dos campeonatos nacionais e das taças de
Portugal, as equipas do Sporting somaram
vitórias em iniciativas pontuais como a taça “O
Século”, competição suprimida sem explicações
depois de os “leões” terem conquistado os dois
primeiros monumentais troféus, e a taça Império.
Esses tempos foram de tal maneira
impressionantes aquém e além-fronteiras que,
apesar de não ser então campeão nacional em
título, o Sporting foi convidado para participar
na primeira edição da Taça dos Clubes Campeões
Europeus, em 1955-56. Foi pena que a UEFA não
tivesse lançado a competição alguns anos mais
cedo... Para a História fica ainda o facto de o
Sporting ter inaugurado a Taça dos Campeões num
jogo com o Partizan de Belgrado (3-3), no
Estádio Nacional. João Martins marcou o primeiro
golo desta histórica e hoje milionária
competição.
O tetracampeonato do Sporting, o primeiro do
futebol português, arrancou em 1950-51 com os
seguintes jogadores: Mário Wilson, Juca,
Jesus Correia, Manuel Passos, Juvenal, Vasques,
Galileu, Veríssimo, Travassos, Martins,
Tormenta, Carlos Gomes, Leandro, Caldeira,
Barros, Canário, José Travassos, César
Nascimento, Anacleto, Manuel Marques, Pacheco
Nobre, Mateus e Pacheco. O treinador era o
britânico Randolph Galloway, que tinha como
adjunto Fernando Vaz.
Em 1955 José Travassos foi o primeiro
futebolista português a ser convocado para uma
Selecção da Europa. Jogou
em Belfast perante a
equipa da Grã-Bretanha e mereceu referências
muito elogiosas da imprensa internacional, assim
conquistando para sempre o cognome de “Zé da
Europa”.
A depois célebre escola de futebol do Sporting
começava já a marcar posição. O clube ganhou o
primeiro Campeonato Nacional de Juniores,
disputado em 1938-39 e, até 1960, repetiu a
façanha em 45-46, 47-48 e 55-56.
No atletismo, o Sporting começou em 1941 a sua
inigualável colheita de Campeonatos Nacionais em
pista, que hoje prossegue galopante: 12 entre
1940 e 1960. Em corta-mato, ou crosse, foram dez
as vitórias colectivas no mesmo período.
Francisco Inácio venceu a Volta a Portugal em
1941, mas os títulos nacionais em estrada e em
pista vão bastante para além disso.
De notar que em 1945 o Sporting fundou as
primeiras escolas de natação em Portugal, “país
de marinheiros” onde mal se nadava. O Sporting
já fora pioneiro ao abrir um posto náutico no
início dos anos vinte, daí as vitórias em pólo
aquático nos primeiros anos da modalidade.
Em 1941 começou a era dos títulos em andebol,
com a vitória no Campeonato Regional na variante
de Onze, a que existia ao tempo, jogada em
campos de futebol. A série de vitórias nacionais
no andebol de sete foi inaugurada em 1951-52 e
os 18 títulos somados até ao momento não estão
ameaçados por qualquer concorrente, seja ele de
longa ou fresca data.
Na década de cinquenta, além dos títulos nas
modalidades de maior divulgação há a registar os
conquistados em bilhar, esgrima, tiro, ténis de
mesa (28 campeonatos nacionais até hoje!),
badminton, automobilismo, os dois primeiros
campeonatos nacionais de voleibol (53-54 e
55-56), o primeiro campeonato nacional de
basquetebol, em 1956. O Sporting viria a
conquistar mais sete títulos máximos nesta
modalidade, entretanto extinta. No voleibol, que
também deixou de se praticar no Clube, o
Sporting conquistou mais quatro títulos até
1993-94.
Em
1956, a 10 de Junho, o Sporting inaugurou o
Estádio José Alvalade, um feito que assinalou a
grande vitalidade, a dinâmica e a capacidade de
mobilização do Clube e dos seus dedicados
associados, que se desdobraram em iniciativas e
sacrifícios para que tal obra gigantesca fosse
possível. O Sporting tinha regressado às
origens, ao Stadium ou Estádio do Lumiar em
1937, arrendado em muito boas condições e depois
reconstruído em 1947. Foi o cenário das récitas
das equipas dos “Cinco Violinos”, que
rapidamente se tornou pequeno para a
extraordinária envergadura do Clube à medida que
se aproximava dos seus primeiros 50 anos de
vida. A necessidade de um novo estádio tornou-se
premente logo no início da década de cinquenta e
acabou por ser uma realidade em 1956, assentando
sobre a área do antigo Stadium. Foi baptizado
com o nome do fundador que teve sempre como
preocupação a qualidade das instalações do
Clube, José Alvalade. Aliás a designação já fora
adoptada anteriormente, a partir de 1947, ao
remodelado Estádio do Lumiar. O sócio nº 1 do
Sporting ao tempo da inauguração do grandioso
Estádio era José Maria Gavazzo, um dos
fundadores e um dos jovens veraneantes de Belas
em 1902.
Mais tarde, em 1983, por acção da presidência de
João Rocha, concretizou-se outra das ambições
sportinguistas em termos de instalações – o
“fecho” do Estádio através da construção da
chamada Bancada Nova, que substituiu o peão
herdado do recinto anterior.
A 6 de Junho de 1960, o Sporting foi declarado
Instituição de Utilidade Pública.
Manuel Faria, fundista de grande prestígio,
antecessor de Manuel de Oliveira, Carlos Lopes,
Fernando Mamede e dos irmãos Castro, venceu as
famosas corridas de São Silvestre de São Paulo
em 1957 e 1958, até então os maiores feitos do
atletismo português juntamente com o quarto
lugar do saltador em comprimento Álvaro Dias no
Campeonato da Europa.
Glória europeia
Na década de sessenta o ponto mais alto do
futebol foi a conquista da Taça Europeia
dos
Vencedores de Taças, em 1963-64. Uma epopeia que
passou por três jogos suplementares, incluindo a
final, uma vitória de 5-0 sobre o Manchester United e uma goleada de 16-1 sobre o Apoel de
Chipre, que ainda hoje é recorde das competições
europeias de clubes. A vitória nessa gesta, na
qual poucos acreditavam à partida tanto mais que
a carreira interna não era famosa, foi obra de
uma equipa unida e psicologicamente fortíssima,
liderada primeiro por Gentil Cardoso, depois
pelo arquitecto Anselmo Fernandez, e na qual
pontificavam, entre alguns outros, grandes nomes
do futebol “leonino” e nacional como Carvalho,
Pedro Gomes, Lino, Alexandre Batista, José
Carlos, Hilário, Fernando Mendes, o grande
capitão, Geo, Pérides, Osvaldo Silva,
Figueiredo, Mascarenhas e João Morais, autor do
canto directo em Antuérpia com o qual se decidiu
o vencedor da prova.
Com a extinção da Taça das Taças na temporada de
1998-99 e respectiva fusão com a Taça UEFA, o
Sporting tornou-se assim o único clube português
a poder ostentar este título histórico.
Entre 1960 e 1999, a equipa de futebol venceu
mais seis Campeonatos Nacionais, o último dos
quais em 1981-82, e mais sete Taças de Portugal,
entre elas a de 1994-95, que assinalou um
regresso da equipa principal aos títulos de
âmbito nacional depois de um prolongado
interregno. Os juniores triunfaram em mais seis
Campeonatos Nacionais, os juvenis em oito, o
mesmo acontecendo com os iniciados. Os infantis
conquistaram três taças nacionais, competição
entretanto extinta durante a década de noventa.
Em 1974, com 46 golos, Hector Yazalde,
ponta-de-lança do Sporting, conquistou a Bota de
Ouro dos goleadores europeus. O seu recorde
ainda hoje se mantém. Em 2002, Mário Jardel
tornou-se o segundo jogador do Sporting a
conquistar essa distinção europeia.
No hóquei em patins o Sporting registou uma
gloriosa vaga europeia entre 1975 e 1990, com
uma Taça dos Campeões Europeus – era a melhor
equipa do mundo na altura –, três Taças das
Taças e uma Taça CERS.
O atletismo foi e continua a ser uma constante
fonte de orgulho para o Sporting. Carlos Lopes
conquistou três
Campeonatos Mundiais de
Corta-Mato, uma medalha de ouro e uma medalha de
prata em Jogos Olímpicos. O corredor do Sporting
empolgou o país com a vitória na maratona
olímpica de Los Angeles, em 1984. Os seus
troféus foram precursores de vários outros de
âmbito olímpico, mundial e europeu de que hoje o
Sporting se orgulha.
Fernando
Mamede foi recordista mundial dos 10 000 metros
durante cinco anos e recordista europeu da mesma
prova durante 15 anos. O Sporting somou
entretanto, até aos dias de hoje, 14 Taças dos
Campeões Europeus e 46 títulos nacionais em
Corta-Mato, 43 títulos nacionais colectivos
masculinos e 37 femininos em pista.
No ano 2000, a equipa de atletismo do Sporting
venceu a Taça dos Clubes Campeões Europeus em
pista, feito único no desporto português que foi
conseguido sobre uma equipa russa que era
praticamente a selecção nacional de uma das
potências mundiais e olímpicas da modalidade. O
glorioso triunfo foi consolidado por mais três
terceiros lugares na mesma prova, confirmando o
Sporting como um dos maiores e mais consistentes
clubes europeus da modalidade olímpica por
excelência, mantendo as equipas masculina e
feminina no escalão máximo continental. Depois
de Carlos Lopes, Fernando Mamede e os irmãos
Castro, todos eles com medalhas e recordes
internacionais, Rui Silva, Naide Gomes, Francis
Obikwelu, o homem mais veloz da Europa, Yuri
Bilonog e Ionela Tirlea são atletas da geração
do centenário com expressão mundial que
interpretam a vocação ganhadora do Sporting
além-fronteiras.
O andebol, outra das modalidades com uma mística
especial no Clube, conquistou um pentacampeonato
entre 1968-69 e 1972-73, feito ainda por igualar
em Portugal.
João
Roque, Leonel Miranda, Joaquim
Agostinho e Marco
Chagas,
entre outros,
brilharam no
ciclismo,
em estradas portuguesas e
estrangeiras. Agostinho – terceiro lugar numa
Volta à França, segundo numa Volta a Espanha,
vencedor de três Voltas a Portugal – morreu a 10
de Maio de 1984, na sequência de uma queda
provocada por um cão quando seguia com a
camisola amarela na Volta ao Algarve, em
representação do Sporting. O seu nome está
perpetuado numa curva da terrível escalada do Alpe D'Huez, na Volta à França, como preito à
épica vitória do ciclista português e
sportinguista nessa mítica etapa.
O ténis de mesa do Sporting amealhou títulos
nacionais numa quantidade recorde insuperável a
curto prazo. Entre 1984-85 e 1994-95 ganhou 11
Campeonatos Nacionais consecutivos e desde o
início da competição, nos anos quarenta, até à
actualidade já soma 28 títulos máximos ao nível
de equipas.
No bilhar, os representantes do Sporting
assumiram igualmente nível europeu, em termos
individuais e colectivos.
Um novo ciclo
Em 1996 o Sporting iniciou um novo ciclo de
vida, por acção de José Roquette e outros
dirigentes caracterizados
por uma dinâmica
transformadora c omo Miguel Galvão Teles, Dias da
Cunha e Ernesto Ferreira da Silva. Aprovou
Estatutos adequados à realidade dos tempos
modernos, lançou as bases de um grupo
empresarial, criou uma Sociedade Desportiva de
Futebol, SAD, admitida na Bolsa logo desde 1998.
Além disso, o Clube assumiu e dinamizou medidas
no sentido de estabelecer a transparência no
desporto e nas relações deste sector de
actividade com as instâncias fiscais e de
segurança social.
No âmbito do processo transformador o Sporting
avançou de maneira determinada, e ainda antes de
Portugal se abalançar na candidatura à
organização do Euro 2004, para a modernização de
infraestruturas.
As acções integradas neste novo ciclo ficaram
conhecidas como “Projecto Roquette”, entendido
globalmente como uma dinâmica de modernização do
Clube em três frentes: a desportiva, com
racionalização e valorização de meios através de
formas actualizadas de funcionamento; a
patrimonial, capaz de proporcionar a
transformação de bens inertes em estruturas
desportivas e multifuncionais rentáveis; e a
organizacional, caracterizada pelo funcionamento
de todo o Clube de forma inovadora, conjugando a
dedicação com a profissionalização de acordo com
as condições reais, valorizando o presente sem
hipotecar o futuro.
Ainda em 1998 o Sporting iniciou todo o processo
de idealização e construção de um estádio de
nova geração, ao nível dos melhores do mundo,
que veio a ser inaugurado em 6 de Agosto de 2003
numa noite emocionante e inesquecível para todos
os sportinguistas.
Em
2002 entrou em funcionamento a Academia
Sporting, no concelho de Alcochete, um
empreendimento a que corresponde um grande
esforço para aprofundar a capacidade e a
qualidade desde sempre revelada pela famosa
escola de talentos do Sporting e que proporciona
excelentes condições de trabalho ao futebol
profissional.
No âmbito das mudanças, os responsáveis
sportinguistas, com José Roquette à cabeça,
definiram como objectivo manter e reforçar o
alto nível competitivo das equipas e atletas do
Sporting, designadamente o futebol, a modalidade
mais querida dos sportinguistas.
Em
torno do novo Estádio cresceu entretanto o
Complexo Alvalade XXI, que reforça a sua
multifuncionalidade. A zona onde o Sporting
nasceu, se engrandeceu e onde continua a viver
foi valorizada, deste modo, com o Edifício
Visconde de Alvalade, que alberga a maioria dos
serviços do Clube e respectivas empresas; o
Edifício Multidesportivo, “casa” do eclectismo
que o Sporting continua a manter desde a
fundação; o Alvaláxia, centro comercial,
cultural e lúdico por onde passam milhares e
milhares de pessoas por dia, e não apenas em
dias de jogos de futebol; uma Clínica Médica; um
Health Club; um Centro de Dia, expressão
solidária do Sporting através dos “Leões de
Portugal”; e o Mundo Sporting, o novo museu do
Clube, o lugar onde sportinguistas e adeptos do
desporto podem sentir ao vivo cem anos de uma
história fabulosa.
Em 2000, através de uma campanha seguida
apaixonadamente por sócios e adeptos, o Sporting
voltou a conquistar o Campeonato Nacional de
Futebol depois de 17 anos de interrupção. Ao
jogo derradeiro, vitória por 4-0 no terreno do
Salgueiros, seguiu-se uma festa de âmbito
nacional, estendida a todos os sítios do mundo
onde há portugueses, que não teve paralelo até
hoje, a não ser na que foi proporcionada pelo
segundo título nacional em três anos, o de 2002.
Uma Taça de Portugal e uma Supertaça Nacional
reforçaram a nova dinâmica do futebol do
Sporting dentro do ciclo transformador e que
teve expressão de relevo mundial em 2005 com a
chegada à final da Taça UEFA através de um
percurso empolgante. O novo Estádio José
Alvalade viveu uma jornada de alto nível em 18
de Maio de 2005: o Sporting perdeu por 1-3 com o
CSKA de Moscovo ao cabo de 14 jogos nos quais
espalhou a qualidade do seu futebol através da
Europa, mas o inêxito derradeiro não apaga a
importância da campanha.
Ao longo da sua História, o futebol do Sporting
atingiu por duas vezes finais europeias – uma
das quais ganhou – e chegou por duas vezes às
meias-finais, uma na Taça das Taças, em 1974,
outra na Taça UEFA, em 1994. Em ambos os casos
perdeu com o vencedor da prova.
À entrada do segundo século de vida o Sporting
revela uma invejável saúde desportiva geral que
reforça o excelente trabalho que o futebol tem
realizado na última década, em todos os
escalões, e que continua a dar frutos e títulos.
O Sporting é, com longa vantagem sobre os
adversários, a maior potência em atletismo, em
andebol, em futsal, em ténis de mesa e domina no
sector feminino da natação. Os últimos títulos
reforçaram a hegemonia no atletismo e no
andebol. No futsal, modalidade relativamente
recente, o Sporting tem o maior número de
campeonatos nacionais conquistados e adquiriu
expressão também ao nível europeu.
Ao mesmo tempo que os atletas sportinguistas
lutam pela vitória em todas as frentes, as
comemorações
do Centenário coincidem com
esforços permanentes dos dirigentes de modo a
que o Clube esteja cada vez mais preparado para
os desafios do presente e do futuro, capaz de
viver com as próprias forças. Um caminho
ambicioso que se vem concretizando passo a
passo, com a necessária consistência.
Afinal foi a ambição de ganhar e de fazer do
Sporting um dos maiores clubes da Europa que
orientou os fundadores, desde os remotos tempos
de um jogo do efémero Sport Club de Belas contra
um grupo de Sintra. A obra de todos os
sportinguistas aí está, erguida dia-a-dia ao
longo de 100 anos, numa interminável estafeta
caracterizada por dedicação, paixão e ambição,
independentemente de quem transporta o
testemunho: um Sporting que é desportivamente o
maior clube português e um dos maiores da
Europa.

|